O tema do Maio Amarelo 2027, lançado recentemente pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), nos convida a olhar para uma verdade simples, mas profunda: aquilo que fazemos no trânsito não termina em nós.

Nossas atitudes influenciam.

Elas podem inspirar cuidado, respeito e prudência. Mas também podem reproduzir pressa, agressividade, imprudência e desrespeito.

Antes de sermos motoristas, motociclistas, ciclistas ou pedestres, somos pessoas compartilhando o mesmo espaço e, muitas vezes, dependendo das escolhas uns dos outros para chegar em segurança.

Para a comunidade cristã, essa reflexão encontra um caminho muito especial: o amor ao próximo.

A fé também precisa atravessar os portões da igreja

A Bíblia não conheceu automóveis, motocicletas, semáforos ou congestionamentos. Mas conhece muito bem o coração humano.

Fala sobre amor, respeito, responsabilidade, domínio próprio, cuidado e convivência.

E esses valores também podem estar presentes no trânsito.

Quando um cristão decide não usar o celular enquanto dirige, respeitar a velocidade regulamentada, colocar o cinto de segurança, utilizar corretamente o capacete ou parar para permitir a travessia de um pedestre, existe ali mais do que o cumprimento de uma regra.

Existe uma escolha pelo cuidado.

Existe a compreensão de que a vida do outro tem valor.

Em Romanos 13, encontramos uma reflexão sobre o respeito às autoridades e às leis. No contexto do trânsito, podemos compreender o respeito às normas como parte de uma convivência responsável: as regras existem também para organizar o espaço compartilhado e proteger vidas.

A fé, portanto, não precisa ficar restrita ao templo.

Ela pode acompanhar o cristão quando ele pega o volante, sobe na motocicleta, atravessa uma rua ou conduz seus filhos para a escola.

Quando ninguém está olhando

Existe uma diferença entre falar sobre amor ao próximo e praticá-lo quando estamos com pressa, cansados ou irritados.

O trânsito muitas vezes nos coloca diante dessas situações.

Alguém fecha nosso caminho.

O congestionamento demora.

O sinal abre e o veículo da frente não percebe.

Um motociclista passa.

Um pedestre atravessa.

E, em poucos segundos, somos convidados a escolher entre reagir com agressividade ou exercer o domínio próprio.

É justamente nesses pequenos momentos que o nosso comportamento se torna testemunho.

Às vezes, amar o próximo no trânsito significa simplesmente esperar.

Pode significar dar passagem.

Pode significar reduzir a velocidade.

Pode significar não responder a uma provocação.

Pode significar entender que chegar alguns minutos mais tarde é infinitamente melhor do que provocar um sinistro que poderá mudar várias vidas para sempre.

Sua atitude realmente vira referência

O tema do Maio Amarelo 2027 traz uma responsabilidade muito bonita: reconhecer que somos exemplos, mesmo quando não pretendemos ser.

Uma criança observa o comportamento dos adultos.

Um adolescente aprende com aquilo que vê.

Um passageiro percebe como o motorista conduz.

Um motociclista pode influenciar outro motociclista.

Uma família constrói hábitos a partir daquilo que vivencia diariamente.

Por isso, quando alguém coloca o capacete corretamente, usa o cinto, respeita a faixa de pedestres ou decide não dirigir depois de beber, essa atitude pode ultrapassar aquele momento.

Ela pode ensinar.

Ela pode inspirar.

Ela pode virar referência.

Da mesma forma, quando naturalizamos o uso do celular ao volante, a velocidade excessiva ou a agressividade nas ruas, também estamos ensinando alguma coisa.

Toda atitude comunica.

Quatro maneiras de levar essa reflexão para a comunidade cristã

As igrejas, paróquias e comunidades de fé possuem uma grande capacidade de mobilização.

São espaços onde famílias se encontram, crianças e jovens aprendem, amizades são construídas e valores são compartilhados.

Por isso, o Maio Amarelo também pode entrar nesses espaços como uma oportunidade de educação para a vida.

1. Um momento de oração pela vida no trânsito

Durante um culto, missa ou celebração, a comunidade pode dedicar alguns minutos à oração por motoristas, motociclistas, ciclistas, pedestres, profissionais que trabalham diariamente nas ruas e famílias que já enfrentaram perdas provocadas pela violência no trânsito.

Mas a oração pode vir acompanhada de uma reflexão:

Pedimos proteção a Deus, mas também precisamos fazer a nossa parte para proteger a vida.

Prudência também é cuidado.

Responsabilidade também é amor.

2. Abrir espaço para a educação

A comunidade pode convidar educadores de trânsito, agentes, profissionais de saúde, socorristas ou especialistas para uma conversa com os jovens e as famílias.

Não precisa ser um grande evento.

Uma roda de conversa depois do culto ou da missa já pode ser suficiente para discutir temas como álcool e direção, motocicletas, velocidade, celular, travessia segura e comportamento no trânsito.

Educação também salva vidas.

3. Transformar a convivência em cidadania

As próprias atividades da comunidade podem estimular atitudes responsáveis.

Compartilhar caronas, organizar deslocamentos entre pessoas que moram próximas, orientar os jovens sobre travessias seguras e cuidar do entorno da igreja são pequenas iniciativas que ajudam a construir uma cultura de respeito.

O trânsito começa antes de ligarmos o motor.

Começa na forma como ocupamos e compartilhamos o espaço público.

4. Criar um compromisso pela vida

Durante o Maio Amarelo, a comunidade pode propor um compromisso coletivo.

Pode ser um mural, uma mensagem, uma fita amarela ou simplesmente uma declaração feita durante uma celebração:

“Eu escolho respeitar a vida no trânsito.”

E esse compromisso pode envolver atitudes muito concretas:

Porque o símbolo pode ser amarelo, mas o compromisso precisa aparecer em nossas escolhas.

O Evangelho nas ruas

Talvez uma das perguntas mais bonitas que o tema de 2027 possa provocar na comunidade cristã seja:

O que a minha fé muda no meu comportamento quando estou no trânsito?

Se falamos sobre amor ao próximo, como tratamos o pedestre?

Se falamos sobre domínio próprio, como reagimos quando alguém nos fecha?

Se falamos sobre cuidado, como conduzimos nossos filhos?

Se valorizamos a vida, estamos dispostos a abrir mão de alguns minutos para preservar a nossa e a de outras pessoas?

O Evangelho não precisa ficar preso às paredes de um templo.

Ele pode atravessar a porta da igreja.

Pode entrar no carro.

Pode acompanhar o motociclista.

Pode caminhar com o pedestre.

Pode alcançar a família.

E pode aparecer em uma escolha aparentemente pequena, mas que talvez seja decisiva para alguém chegar vivo em casa.

No trânsito, nossa atitude vira referência.

Que a nossa referência seja o respeito.

Que a nossa escolha seja a prudência.

E que a nossa fé também seja percebida na maneira como cuidamos da vida do próximo.

Porque, no fim das contas, o amor ao próximo também pode estar no caminho.

Abimadabe Vieira

30 de setembro de 2026

TRÂNSITO: UMA QUESTÃO DE EDUCAÇÃO!