Ao inaugurar um espaço destinado a motoristas e entregadores de aplicativos, o município mineiro demonstra que proteger quem trabalha diariamente nas ruas também é uma obrigação das cidades que dizem defender a segurança viária

O “Parada Certa”, inaugurado em Contagem, foi criado para oferecer apoio, descanso e melhores condições aos motoristas e entregadores de aplicativos.

Enquanto milhares de motoristas e entregadores de aplicativos percorrem diariamente as ruas brasileiras enfrentando longas jornadas, pressão por produtividade, calor, chuva, fome, cansaço e ausência de locais adequados para uma simples pausa, uma iniciativa adotada em Contagem, Minas Gerais, chama a atenção do país.

No dia 10 de setembro, o município inaugurou o “Parada Certa”, uma estrutura voltada exclusivamente ao atendimento de motoristas e entregadores de aplicativos. O espaço, localizado no bairro Eldorado, foi criado para oferecer condições básicas de descanso, higiene, alimentação e convivência a trabalhadores que passam grande parte da vida profissional nas ruas. A iniciativa é fruto de parceria entre a Prefeitura de Contagem, o Governo Federal e a Fundação Banco do Brasil.

A ABETRAN considera que Contagem merece reconhecimento pela iniciativa. Mais do que inaugurar um espaço físico, o município tomou uma decisão que deveria provocar reflexão em prefeitos e gestores de todo o Brasil: afinal, o que as cidades têm feito, concretamente, para cuidar de quem trabalha todos os dias no trânsito?

QUEM PASSA O DIA NO TRÂNSITO TAMBÉM PRECISA DE CUIDADO

Representantes dos trabalhadores participaram da inauguração de uma estrutura pensada a partir das necessidades de quem vive diariamente a rotina das ruas.

O trânsito é, para milhões de brasileiros, muito mais do que um caminho entre a casa e o trabalho. Para motoristas de aplicativos e entregadores, é o próprio ambiente de trabalho.

São horas consecutivas ao volante ou sobre duas rodas. São prazos, chamadas, entregas, deslocamentos e a necessidade permanente de permanecer conectado. Muitas vezes, uma pausa representa deixar de atender uma corrida ou perder uma oportunidade de renda.

Nesse cenário, necessidades básicas acabam sendo adiadas. Onde parar? Onde utilizar um banheiro? Onde fazer uma refeição? Onde descansar alguns minutos? Onde carregar o celular? Onde se proteger da chuva ou do sol intenso?

São perguntas simples, mas que muitas cidades ainda parecem não fazer.

A ausência de estrutura não pode ser tratada como algo natural. Cansaço e exaustão interferem na capacidade de atenção e podem aumentar a exposição aos riscos nas vias. O próprio material divulgado durante a inauguração do “Parada Certa” destaca a importância de um local onde os profissionais possam fazer uma pausa, se refrescar, carregar o celular e utilizar o banheiro, relacionando a falta dessa estrutura ao aumento do cansaço e dos riscos no trânsito.

Por isso, quando se fala em prevenção de sinistros viários, é preciso ir além das campanhas tradicionais.

Não basta exigir atenção de quem conduz sem discutir as condições em que essa pessoa trabalha.

Não basta cobrar prudência sem considerar a fadiga.

Não basta falar em preservação da vida enquanto se ignora a realidade daqueles que passam dez, doze ou mais horas circulando pelas cidades.

CONTAGEM ENTENDEU QUE SEGURANÇA VIÁRIA TAMBÉM COMEÇA FORA DO VEÍCULO

Além do acolhimento aos trabalhadores, o espaço abre possibilidades para cursos, encontros e ações permanentes de educação para o trânsito.

A grande importância da iniciativa está justamente em ampliar o olhar sobre a segurança.

Tradicionalmente, o debate sobre trânsito concentra-se, com razão, em fiscalização, sinalização, engenharia, comportamento e educação. Mas existe outro fator que precisa receber atenção: as condições humanas de quem está diariamente exposto ao sistema viário.

Um trabalhador cansado não deixa de estar cansado porque recebeu uma mensagem educativa.

Uma pessoa que passou horas sem uma pausa adequada não recupera sua condição física apenas porque existe uma placa recomendando prudência.

A educação é indispensável. A fiscalização também. A engenharia, igualmente. Mas a segurança precisa estar acompanhada de políticas que reconheçam a realidade das pessoas.

É nesse ponto que Contagem dá um passo que merece ser observado.

O “Parada Certa” dispõe de área de descanso, tomadas para carregamento de celulares, acesso à internet, copa equipada para refeições, área de convivência, banheiros e chuveiros.

Não se trata de luxo.

Trata-se de oferecer condições mínimas de dignidade a profissionais que ajudam a manter as cidades funcionando.

UM ESPAÇO DE APOIO PODE SE TRANSFORMAR EM UM ESPAÇO DE EDUCAÇÃO

A proposta de Contagem também abre uma possibilidade que a ABETRAN considera especialmente importante: transformar esses espaços em pontos permanentes de educação para o trânsito.

Segundo as informações divulgadas pela Prefeitura, estão previstas no local ações como vacinação, educação financeira e atividades de educação para o trânsito em parceria com a Transcon.

Esse é um caminho que merece ser fortalecido.

Motoristas e entregadores precisam estar presentes nas políticas educativas não apenas como destinatários de orientações, mas como participantes ativos de uma construção coletiva pela segurança.

Esses profissionais convivem diariamente com motociclistas, ciclistas, pedestres, motoristas particulares, ônibus, caminhões e veículos de diferentes portes. Conhecem, na prática, os problemas de cada cruzamento, as dificuldades das vias, os comportamentos de risco e as situações que tornam determinados locais mais perigosos.

Ouvir quem está todos os dias nas ruas pode ajudar o poder público a enxergar problemas que muitas vezes não aparecem em relatórios ou reuniões de gabinete.

Um ponto de apoio pode, portanto, ser também um local para cursos, campanhas, rodas de conversa, orientações preventivas e diálogo entre trabalhadores, especialistas e órgãos responsáveis pelo trânsito.

E AS OUTRAS CIDADES, O QUE ESTÃO ESPERANDO?

A inauguração do “Parada Certa” coloca Contagem como referência em uma discussão que precisa alcançar cidades de todas as regiões brasileiras.

É justamente aqui que o exemplo de Contagem precisa deixar de ser apenas uma notícia positiva e passar a ser uma cobrança.

O Brasil possui centenas de municípios com grande circulação de motoristas e entregadores por aplicativos. Alguns convivem diariamente com congestionamentos, altas temperaturas, extensas jornadas de trabalho e número crescente de profissionais que dependem das ruas para garantir sua renda.

Mas quantos municípios possuem um único espaço público destinado a esse trabalhador?

Quantos prefeitos já se reuniram com representantes da categoria para ouvir suas necessidades?

Quantas secretarias de trânsito conhecem efetivamente a realidade de quem trabalha dez ou doze horas por dia em suas cidades?

E, principalmente, quantas administrações municipais estão dispostas a transformar esse conhecimento em uma ação concreta?

Contagem mostrou que é possível sair do discurso.

E esse é o ponto que a ABETRAN destaca: cuidar de quem trabalha no trânsito também é uma forma de cuidar da segurança de todos.

Cada cidade possui uma realidade e não existe uma única fórmula. Municípios maiores podem criar equipamentos específicos. Outras administrações podem estabelecer parcerias com empresas, entidades representativas e instituições. Podem ser criados pontos de apoio permanentes ou estruturas adaptadas às características locais.

O que não pode continuar sendo aceito é a ideia de que quem passa o dia inteiro trabalhando nas ruas precisa resolver sozinho todas as suas necessidades básicas.

A SEGURANÇA NO TRÂNSITO EXIGE RESPONSABILIDADE COMPARTILHADA

É importante deixar claro que a criação de espaços de apoio não substitui a responsabilidade individual de cada profissional.

Continuam indispensáveis o respeito às normas de trânsito, a condução responsável, a atenção permanente, o uso correto dos equipamentos de segurança e a rejeição a comportamentos que coloquem vidas em risco.

Mas também não é justo colocar toda a responsabilidade sobre os ombros de quem trabalha.

As plataformas, empresas e demais setores que dependem desses profissionais precisam participar do debate sobre condições de trabalho e segurança.

O poder público precisa ouvir, planejar e agir.

As entidades precisam contribuir com conhecimento e diálogo.

E a sociedade precisa compreender que, por trás de cada entrega e de cada corrida, existe uma pessoa que também precisa de proteção, respeito e condições dignas.

A segurança viária não será construída apontando apenas o erro do condutor depois que um sinistro acontece.

Ela precisa ser construída antes.

Com educação.

Com prevenção.

Com planejamento.

Com responsabilidade compartilhada.

E, principalmente, com políticas públicas capazes de enxergar o ser humano.

CONTAGEM MOSTROU QUE É POSSÍVEL. AGORA É HORA DE OUTRAS CIDADES MOSTRAREM VONTADE

O “Parada Certa” não resolve sozinho todos os problemas enfrentados por motoristas e entregadores de aplicativos. Nenhuma iniciativa isolada seria capaz disso.

Mas representa algo que, muitas vezes, falta ao poder público: a disposição de reconhecer um problema e tomar uma providência concreta.

Contagem fez isso.

Abetran 14 de setembro de 2026

George J Marques

Fotos: João Pedro Alcântara/PMC

TRÂNSITO: UMA QUESTÃO DE EDUCAÇÃO!