Do DER-MG à construção de políticas nacionais, uma caminhada marcada pela Psicologia, pela pesquisa, pelo ensino e pela defesa permanente de escolhas mais seguras nas ruas brasileiras

Rosely Fantoni: uma profissional cuja atuação ajudou a aproximar conhecimento, educação e segurança viária.
Algumas histórias impressionam pela quantidade de cargos ocupados. Outras, pela extensão do tempo. E há aquelas que se tornam especiais porque, em cada etapa, deixam conhecimento, inspiram pessoas e ajudam a transformar a maneira como uma sociedade compreende um problema. A história de Rosely Fantoni reúne as três dimensões.
Desde o ingresso no Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG), em 1982, Rosely construiu uma trajetória profissional profundamente ligada ao trânsito, ao transporte, à Psicologia e à educação. Ao longo de mais de quatro décadas, esteve em salas de aula, órgãos públicos, eventos, congressos, programas de televisão, campanhas educativas e espaços de formulação de políticas públicas.
Mais do que acumular experiências, ela soube transformar cada oportunidade em aprendizado e cada aprendizado em conhecimento compartilhado. É essa capacidade de fazer o saber circular, formar profissionais e defender a preservação da vida que torna sua presença tão marcante na história da educação para o trânsito no Brasil.
A Associação Brasileira de Educação para o Trânsito, ABETRAN, ao contar essa trajetória na série “Histórias que Movem o Brasil”, reconhece uma profissional cuja contribuição ultrapassa funções e instituições. Rosely Fantoni ajudou a construir caminhos para que a educação fosse compreendida como parte essencial da segurança viária.
Uma escolha que abriu caminho
Em 1982, depois de ser aprovada em concurso público, Rosely ingressou no DER-MG como Analista de Administração. A designação para atuar na então Diretoria de Trânsito e Transporte aconteceu quando ela ainda cursava Psicologia. O que poderia ser apenas uma etapa profissional acabou se tornando o ponto de partida de uma dedicação que atravessaria décadas.
No DER-MG, encontrou uma área de Recursos Humanos ativa e inovadora. Pediu a oportunidade de realizar estágio em Psicologia durante meio período e foi acolhida. Em pouco tempo, passou a integrar a equipe técnica e a atuar em seleção, treinamento e acompanhamento funcional.
Formada em Psicologia em 1984, começou a realizar avaliações psicológicas de fiscais de transporte, operadores de máquinas, motoristas, gerentes e outros profissionais. Também participou de programas de capacitação em diferentes regiões de Minas Gerais. Assim, desde cedo, conheceu de perto a complexidade de um estado que possui a maior malha rodoviária do país e os enormes desafios que isso representa para a mobilidade e a segurança.
Quando a educação passou a ser estratégia

TRAJETÓRIA E VISIBILIDADE PÚBLICA — Rosely em participação na televisão, uma das muitas formas encontradas para levar conhecimento sobre segurança viária ao público.
Em 1989, o DER-MG implementou um programa estadual de ações integradas de engenharia, fiscalização e operação viária. Rosely compreendeu que havia um componente que precisava ganhar espaço: a educação. Foi constituído um grupo de trabalho com profissionais de diferentes áreas do Departamento, e ela teve a satisfação de participar da iniciativa e, posteriormente, assumir sua coordenação.
O desafio era enorme. Praticamente não havia, no Brasil, referências estruturadas para orientar programas de educação para o trânsito. A equipe precisou pesquisar experiências nacionais e internacionais. A Suécia aparecia como referência mundial, enquanto os Estados Unidos desenvolviam programas especialmente voltados à formação de futuros motoristas.
Rosely e seus colegas chegaram a manter contato com especialistas suecos e receberam materiais educativos. Mas veio uma conclusão fundamental: não bastava copiar modelos. Os hábitos, a cultura, as condições sociais e a realidade do trânsito brasileiro exigiam soluções próprias. Era preciso adaptar, criar metodologias e desenvolver uma educação que dialogasse com a população do país.
Foi nesse contexto que Rosely conheceu o professor e psicólogo Dr. Reinier Johannes Antonius Rozestraten, um dos pioneiros da Psicologia do Trânsito no Brasil. Entre 1982 e 1984, ele atuou na Universidade Federal de Uberlândia, onde criou o primeiro grupo de pesquisa em Psicologia do Trânsito do país e implantou um curso de pós-graduação lato sensu na área. Diversos servidores do DER-MG foram qualificados por ele. Seus conhecimentos e, sobretudo, sua simplicidade, generosidade e dedicação ao ensino contribuíram para consolidar as bases do trabalho que Rosely e sua equipe desenvolviam.
Reconhecimento que veio cedo
O trabalho desenvolvido no DER-MG começou a receber reconhecimento ainda naquele período. Em 1989, a equipe recebeu o Prêmio Volvo de Segurança no Trânsito, na categoria Menção Honrosa. Nos dois anos seguintes, 1990 e 1991, conquistou o prêmio na categoria Estado do Ano.
Em 1994, veio o reconhecimento no 1º Concurso Interno de Inventividade no Setor Rodoviário do DER-MG. No ano seguinte, o trabalho recebeu o Prêmio Colunistas, em nível regional. Em 1996, foi selecionado pelo Programa Gestão Pública e Cidadania, promovido pela Fundação Getúlio Vargas e pela Fundação Ford.
Esses prêmios não são apenas marcas em uma carreira. Eles ajudam a mostrar que, desde o início, havia algo diferente naquele trabalho: a disposição de pesquisar, experimentar, adaptar conhecimentos e transformar a educação em uma ferramenta concreta de prevenção.
Formação para formar outros profissionais
Enquanto ampliava sua experiência prática, Rosely também investia continuamente na própria formação. Concluiu especialização em Educação Ambiental e especializações em Psicologia do Trânsito e Psicologia Organizacional e do Trabalho, reconhecidas pelo Conselho Regional de Psicologia.
No DER-MG, exerceu funções de gestão, incluindo Gestora de Transportes e Obras Públicas e Chefe de Serviço. Depois, realizou mestrado na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), dedicando-se à pesquisa sobre prevenção das diversas formas de violência que atingem a sociedade, com atenção especial à violência no trânsito.
Essa combinação entre experiência, pesquisa e formação acadêmica se tornaria uma das características mais fortes de sua atuação: Rosely nunca se limitou a conhecer um assunto. Procurou compreender, estudar, ensinar e multiplicar o conhecimento.
Da sala de aula às políticas nacionais

FORMAÇÃO E DIFUSÃO DO CONHECIMENTO — Rosely durante o 1º Workshop Setes para Escolas, em 2013, em uma atividade voltada à educação e à formação.
Entre 2000 e 2004, Rosely coordenou o Curso de Pós-Graduação em Educação para o Trânsito da Universidade FUMEC, onde também lecionou no Curso de Pós-Graduação em Transporte e Trânsito. A experiência ampliou sua atuação como formadora de profissionais que, posteriormente, levariam esse conhecimento para diferentes áreas do sistema de mobilidade.
A partir de 2007, passou a ministrar a disciplina Educação para o Trânsito em diversas turmas da Pós-Graduação em Transporte e Trânsito do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG). Em 2008, atuou como professora na Fundação Educacional de Divinópolis (FUNEDI), no Curso de Formação de Psicólogo Perito Examinador.
Também lecionou em programas de pós-graduação e capacitação profissional em instituições de diferentes estados, incluindo Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Congressos, seminários, cursos e eventos nacionais e internacionais completaram esse percurso, sempre com a mesma disposição: aprender, compartilhar e formar.

CONHECIMENTO EM MOVIMENTO — Participação na Feira de Ciências, Tecnologia, Cultura e Educação em Segurança no Trânsito de Minas Gerais (Fecitran), em 2016.
Entre 2004 e 2014, representou o DER-MG em Brasília na Câmara Temática de Educação para o Trânsito do então Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN), hoje Secretaria Nacional de Trânsito (SENATRAN), vinculada ao Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN).
Foi uma experiência de dimensão nacional. Ao lado de especialistas de diferentes regiões, participou da elaboração de políticas, programas e diretrizes voltadas para a educação e a segurança no trânsito. No mesmo período, representou o DENATRAN em cursos realizados em diversas partes do Brasil, conhecendo de perto a riqueza, a diversidade e os desafios do sistema brasileiro.
Essa presença em diferentes estados ajudou a consolidar uma característica que acompanha sua história: a capacidade de enxergar o trânsito para além de uma única realidade local. Para Rosely, educar exige compreender pessoas, contextos, culturas e necessidades diferentes.
Uma professora que formou multiplicadores

EDUCAÇÃO NA PRÁTICA — Participação na 2ª Feira de Ciências, Tecnologia, Educação e Cultura no Trânsito de Minas Gerais, em 2017.
Existe uma diferença importante entre transmitir uma informação e formar alguém para que essa informação continue circulando. Rosely construiu sua carreira exatamente nessa segunda perspectiva.
Foram cursos, aulas, palestras, seminários, congressos e capacitações. Foram profissionais das áreas de trânsito, transporte, Psicologia e segurança viária. Foram estudantes que tiveram contato com uma visão mais humana da mobilidade e servidores públicos que puderam incorporar novos conhecimentos ao cotidiano de trabalho.
Em 2016, por exemplo, assumiu a responsabilidade de coordenar a Escola Pública de Trânsito do DER-MG, destacando o prazer de trabalhar ao lado de uma equipe de primeira linha. A experiência reforçou sua convicção de que educação não se faz isoladamente: depende de equipes comprometidas, diálogo e disposição para construir coletivamente. Essa mesma postura aparece em sua participação na 2ª Feira de Ciências, Tecnologia, Educação e Cultura no Trânsito de Minas Gerais, realizada em parceria entre DER-MG e CEFET-MG, e em ações educativas desenvolvidas em municípios do sul de Minas, como São João da Mata e Silvianópolis.
A educação que ocupa as ruas

EDUCAÇÃO NAS RUAS — Rosely durante ação do Movimento Maio Amarelo na Praça Sete, em Belo Horizonte, em 2018.
Para Rosely, a educação para o trânsito nunca ficou restrita às salas de aula. Ela também esteve nas ruas, nas campanhas, nos meios de comunicação e nos espaços onde a população está.
Em 2016, participou de campanha educativa na Rodoviária de Belo Horizonte, levando orientações sobre a importância do uso do cinto de segurança por todos os passageiros. Em 2017, esteve no Movimento Maio Amarelo na Praça Sete, em Belo Horizonte, reforçando a defesa de um trânsito mais humano. Também participou de ações em escolas, programas de rádio e atividades educativas em diferentes municípios.
Em 2019, sua atuação chegou novamente à televisão, em entrevista sobre mobilidade, e ela participou de reportagem do Jornal Nacional sobre o uso de patinetes em Belo Horizonte. A presença na imprensa não era apenas uma questão de visibilidade: era mais um canal para fazer a informação chegar a milhares de pessoas.
Essa capacidade de dialogar com públicos diferentes é uma das razões pelas quais sua contribuição se tornou tão relevante. Rosely sabe transitar entre o universo acadêmico, a gestão pública, os profissionais do setor e o cidadão comum, e consegue traduzir conhecimento técnico em mensagens que podem ser compreendidas e aplicadas no cotidiano.
Reconhecimento que se transforma em responsabilidade

RECONHECIMENTO — Rosely entre profissionais e parceiros durante o VI Prêmio ICETRAN de Qualidade e Segurança no Trânsito, em Santa Catarina, em 2011.
Em 2011, a Câmara Temática de Educação para o Trânsito e Cidadania do Conselho Nacional de Trânsito recebeu a Homenagem Especial Amigo do Trânsito, durante a entrega do VI Prêmio ICETRAN de Qualidade e Segurança no Trânsito, em Santa Catarina. Rosely registrou esse momento com a humildade de quem entende que homenagens pertencem também às equipes, aos parceiros e às instituições que constroem resultados.
A imagem daquele reconhecimento é simbólica porque traduz uma característica de sua caminhada: o trabalho coletivo. Ao longo dos anos, ela esteve ao lado de profissionais de diferentes áreas, participou de iniciativas interinstitucionais e ajudou a construir pontes entre conhecimento, gestão e sociedade. Para quem acompanha sua trajetória, talvez o maior mérito esteja justamente aí. Rosely nunca tratou a educação para o trânsito como uma ação pontual. Para ela, trata-se de um compromisso permanente, que precisa começar cedo, acompanhar as diferentes fases da vida e estar presente nas escolas, empresas, órgãos públicos, comunidades e meios de comunicação.
Uma presença que ultrapassou os cargos
Quem olha apenas para o currículo pode encontrar uma sucessão de funções, instituições, cursos, prêmios e eventos. Mas a essência dessa história está em outro lugar.
Está na profissional que percebeu, ainda no início da carreira, que o trânsito precisava de mais do que fiscalização. Está na psicóloga que estudou o comportamento humano. Na pesquisadora que buscou compreender as diferentes formas de violência. Na professora que decidiu compartilhar conhecimento. Na gestora que aceitou responsabilidades. Na palestrante que levou experiências para diferentes públicos. E na cidadã que continua entendendo que cada escolha no trânsito pode representar uma diferença enorme na vida de alguém.
Está também na capacidade de permanecer aprendendo. Ao afirmar que continua aprendendo a cada nova experiência, Rosely revela talvez uma das características mais bonitas de sua trajetória: mesmo depois de tantas décadas, tantos cursos, tantos reconhecimentos e tantas contribuições, ela não considera que a missão esteja concluída.
Enquanto as estatísticas registrarem pessoas mortas ou com sequelas permanentes em decorrência de sinistros de trânsito, ela entende que haverá trabalho pela frente. Pesquisar. Educar. Mobilizar. Formar. E continuar buscando um trânsito mais humano, seguro e responsável para todos.
Uma história que continua ensinando

COMUNICAÇÃO COMO FERRAMENTA EDUCATIVA — Entrevista concedida ao MG1, em Belo Horizonte, em 6 de novembro de 2019.
Rosely Fantoni é, antes de tudo, uma profissional que transformou conhecimento em compromisso. Sua trajetória mostra que grandes mudanças não acontecem apenas por meio de grandes decisões. Elas também nascem de uma aula, de uma campanha, de uma pesquisa, de uma conversa, de uma orientação dada no momento certo ou de um profissional que aprendeu a enxergar o trânsito de outra maneira.
Sua contribuição para a educação para o trânsito brasileiro é construída em muitas frentes: na administração pública, na Psicologia, na pesquisa, na formação acadêmica, na elaboração de políticas, na comunicação e na mobilização social. Poucas pessoas conseguem reunir, com tamanha coerência, tantas dimensões de um mesmo propósito.
E talvez seja justamente essa coerência que explique por que sua história merece ser contada. Rosely não apenas trabalhou com trânsito. Ela ajudou a construir uma cultura de educação para o trânsito. Não apenas ensinou conteúdos. Formou pessoas para multiplicá-los. Não apenas participou de eventos. Levou para cada espaço a defesa de um princípio simples e poderoso: segurança viária se constrói com conhecimento, responsabilidade e respeito.
A ABETRAN se sente honrada em registrar essa história. Porque histórias como a de Rosely Fantoni não pertencem somente a quem as viveu. Elas pertencem também às pessoas que foram ensinadas, aos profissionais que foram formados, às equipes que aprenderam, às famílias que podem ser protegidas por comportamentos mais seguros e às novas gerações que ainda precisam descobrir que educar para o trânsito é, em essência, educar para a convivência e para o respeito à vida.
Rosely chegou longe. Mas, talvez, sua maior conquista seja ter ajudado tantas outras pessoas a chegar mais longe também, com mais conhecimento, mais consciência e mais compromisso com um trânsito verdadeiramente humano.
Abetran, 30 de agosto de 2026
George J Marques
TRÂNSITO: UMA QUESTÃO DE EDUCAÇÃO!