Pesquisa internacional relaciona a poluição do transporte a milhares de mortes e doenças respiratórias.

O trânsito produz impactos que vão além dos congestionamentos: a exposição aos poluentes emitidos pelos veículos também representa um desafio para a saúde pública.
Estudo internacional mostra que os veículos movidos a combustíveis fósseis estão associados a centenas de milhares de mortes prematuras no mundo e aponta que uma transição acelerada para veículos de emissão zero poderia evitar milhões de óbitos até 2050
Quando se fala em segurança no trânsito, é comum pensar imediatamente em velocidade, ultrapassagens perigosas, direção sob efeito de álcool, distração, infraestrutura e comportamento humano. Existe, porém, uma ameaça que circula diariamente pelas mesmas ruas, avenidas e rodovias e que, diferentemente de um sinistro, não acontece em segundos.
Ela é silenciosa, invisível e contínua.
Está no ar.
A poluição produzida pelo transporte rodoviário representa um problema de saúde pública de grandes proporções. É o que mostra um estudo do International Council on Clean Transportation (ICCT), que avaliou os impactos das emissões de veículos sobre a saúde da população e projetou diferentes cenários para as próximas décadas.
A pesquisa, intitulada Health Benefits of Zero-Emission Transport Through 2050, demonstra que as escolhas feitas hoje sobre a frota mundial terão consequências muito além do setor automotivo. Elas poderão determinar quantas pessoas serão expostas à poluição, quantas desenvolverão doenças relacionadas à qualidade do ar e quantas vidas poderão ser preservadas.
O levantamento estima que as emissões do transporte rodoviário estiveram associadas a quase 700 mil mortes prematuras em todo o mundo em 2024.
O número transforma a poluição veicular em algo muito maior do que uma questão ambiental.
É uma questão de saúde, planejamento urbano e, sobretudo, de proteção à vida.
Uma ameaça que não aparece em um único momento
Um sinistro de trânsito possui um instante definido. Há uma colisão, uma queda ou um atropelamento. A poluição atmosférica funciona de maneira diferente.
A exposição acontece diariamente.
Milhões de pessoas vivem, trabalham, estudam e circulam próximas a avenidas de grande movimento, corredores de ônibus, rodovias e áreas de intenso tráfego de caminhões. Em cada deslocamento, a população pode entrar em contato com uma mistura de poluentes emitidos pelos veículos.
Entre os principais componentes associados aos impactos sobre a saúde estão o material particulado fino, conhecido como PM2,5, e os óxidos de nitrogênio.
O material particulado merece atenção especial porque suas partículas são extremamente pequenas e podem penetrar profundamente no sistema respiratório.
A exposição prolongada está associada ao agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares e pode contribuir para mortes prematuras.
Isso significa que o trânsito pode produzir consequências que não são percebidas imediatamente.
O veículo passa.
A fumaça se dispersa.
Mas seus efeitos sobre a saúde podem permanecer.
Quase 700 mil mortes em um único ano
Os números apresentados pelo ICCT ajudam a dimensionar a extensão do problema.
Somente em 2024, a poluição relacionada ao transporte rodoviário esteve associada a quase 700 mil mortes prematuras no mundo.
O levantamento também relaciona as emissões dos veículos a aproximadamente 250 mil novos casos de asma infantil naquele ano.
São números que ajudam a compreender que a discussão sobre a matriz energética dos veículos não pertence exclusivamente ao setor de transportes.
Ela também diz respeito aos sistemas de saúde.
Quanto maior a exposição da população aos poluentes, maior pode ser a pressão sobre hospitais, unidades de atendimento e tratamentos de doenças crônicas.
E existe um agravante: a frota mundial continua crescendo.
O tamanho da frota pode mudar o futuro
Um dos pontos centrais do estudo é justamente a relação entre tecnologia e crescimento da frota.
Veículos novos tendem a apresentar padrões de emissão mais rigorosos e tecnologias mais eficientes. Entretanto, se o número total de veículos continuar aumentando em ritmo elevado, a redução das emissões individuais poderá não ser suficiente para compensar o crescimento da atividade de transporte.
É uma equação simples.
Se cada veículo polui menos, mas existem cada vez mais veículos circulando, parte do ganho ambiental pode ser perdida.
Por isso, o futuro da qualidade do ar dependerá não apenas da eficiência de cada automóvel, caminhão ou ônibus, mas também da velocidade com que os veículos mais poluentes serão substituídos e da capacidade das cidades de oferecer alternativas ao uso excessivo do transporte individual.
O Brasil está diante de um desafio particular
O Brasil não está fora dessa realidade.
De acordo com as estimativas apresentadas pelo ICCT, aproximadamente 8 mil mortes prematuras no país em 2024 estiveram associadas à poluição do transporte rodoviário.
O estudo também estima cerca de 9,2 mil novos casos de asma infantil relacionados às emissões do transporte no mesmo período.
Mais preocupante ainda é o que pode acontecer nas próximas décadas caso a transição tecnológica avance lentamente.
No cenário baseado nas políticas atualmente adotadas, o número de mortes associadas à poluição do transporte rodoviário no Brasil poderá aumentar 47% até 2050.
A projeção não significa que os veículos individualmente estarão necessariamente mais poluentes.
O problema é que a frota deverá crescer e a substituição dos veículos movidos a combustíveis fósseis poderá não ocorrer em velocidade suficiente.
Quando a população envelhece, o problema ganha outra dimensão
Existe ainda uma característica demográfica que precisa ser considerada.
A população brasileira está envelhecendo.
Pessoas idosas podem apresentar maior vulnerabilidade a determinados efeitos da poluição atmosférica, especialmente quando já convivem com problemas respiratórios ou cardiovasculares.
Isso significa que as próximas décadas poderão combinar dois fenômenos importantes: uma frota ainda numerosa e uma população proporcionalmente mais envelhecida.
A consequência é uma necessidade ainda maior de políticas capazes de reduzir a exposição aos poluentes.
A qualidade do ar passa, portanto, a fazer parte também da discussão sobre envelhecimento saudável.
Crianças também estão no centro da preocupação

Crianças estão entre os grupos que merecem atenção especial diante da exposição contínua aos poluentes atmosféricos.
Se os idosos estão entre os grupos que exigem atenção especial, as crianças representam outro ponto crítico.
O sistema respiratório ainda está em desenvolvimento durante a infância. A exposição contínua a poluentes pode representar riscos importantes para a saúde.
O estudo do ICCT associa a poluição do transporte rodoviário a aproximadamente 250 mil novos casos de asma infantil no mundo em 2024.
No Brasil, foram estimados cerca de 9,2 mil novos casos.
Por trás de cada estatística existe uma criança que pode precisar de acompanhamento médico, medicamentos, atendimento de emergência ou conviver com limitações provocadas por uma doença respiratória.
É por isso que discutir veículos mais limpos não significa apenas discutir tecnologia.
Significa discutir o direito de uma criança respirar um ar de melhor qualidade.
O futuro pode ser muito diferente

A expansão dos veículos de emissão zero é apontada como uma das estratégias capazes de reduzir os impactos da poluição produzida pelo transporte rodoviário.
O estudo do ICCT não apresenta apenas um cenário de preocupação.
Ele também demonstra que existe uma possibilidade concreta de mudar essa trajetória.
A pesquisa avaliou um cenário de adoção acelerada de veículos de emissão zero, com uma transição muito mais rápida da frota mundial.
Nesse cenário, as mortes prematuras relacionadas à poluição do transporte rodoviário poderiam cair 63% até 2050, enquanto os novos casos de asma infantil poderiam ser reduzidos em aproximadamente 80%.
A estimativa global é especialmente expressiva: uma transição acelerada poderia evitar aproximadamente 8,8 milhões de mortes prematuras entre 2024 e 2050.
É uma diferença que mostra o tamanho da oportunidade.
Não se trata apenas de reduzir emissões.
Trata-se de evitar doenças e preservar vidas.
O que significa um veículo de emissão zero?
A expressão “veículo de emissão zero” costuma ser associada principalmente aos veículos elétricos a bateria.
Na prática, o conceito utilizado nas políticas de transição tecnológica pode abranger diferentes tecnologias capazes de eliminar as emissões de poluentes pelo escapamento durante a operação.
Os veículos elétricos a bateria são atualmente a principal tecnologia disponível nesse processo, especialmente para automóveis, ônibus e determinadas categorias de veículos comerciais.
Mas a transição exige muito mais do que substituir motores.
É preciso criar infraestrutura de recarga, adaptar redes elétricas, formar profissionais, desenvolver componentes e baterias e estabelecer políticas capazes de acelerar a renovação das frotas.
Caminhões e ônibus não podem ficar de fora

A eletrificação do transporte coletivo pode reduzir a emissão de poluentes em áreas urbanas de grande circulação de pessoas.
Um dos desafios mais importantes está nos veículos pesados.
Caminhões percorrem longas distâncias e podem permanecer em operação durante muitas horas. Ônibus urbanos circulam diariamente em áreas densamente povoadas, transportando grande número de pessoas.
Por isso, a transição desses veículos pode produzir benefícios significativos para a qualidade do ar.
No Brasil, entretanto, o ritmo ainda é um desafio.
Segundo as projeções analisadas pelo ICCT, no cenário baseado nas políticas atuais a participação de veículos de emissão zero nas vendas de veículos pesados permaneceria bastante limitada em 2050, chegando a aproximadamente 12%.
Entre os veículos leves, a participação poderia alcançar cerca de 57%.
Os números mostram que a transformação da frota precisa alcançar todos os segmentos.
Não adianta pensar apenas no carro particular enquanto ônibus e caminhões continuam dependendo majoritariamente de combustíveis fósseis.
A cidade também precisa mudar
Existe outro ponto que não pode ser ignorado.
A solução para a poluição do transporte não consiste simplesmente em trocar todos os automóveis convencionais por elétricos.
Uma cidade que substitui milhões de carros a combustão por milhões de carros elétricos continuará enfrentando problemas relacionados a congestionamentos, ocupação do espaço público, acidentes, necessidade de estacionamento e deslocamentos excessivos.
A eletrificação é uma parte importante da solução, mas precisa estar acompanhada de uma transformação da mobilidade.
Transporte público eficiente, integração entre diferentes modos de deslocamento, infraestrutura para bicicletas, calçadas adequadas e planejamento urbano podem reduzir a dependência do automóvel.
Quanto menos deslocamentos individuais forem necessários e quanto maior for a eficiência do transporte coletivo, menor tende a ser a pressão sobre o sistema viário.
O transporte coletivo pode produzir ganhos em escala
A eletrificação dos ônibus merece atenção especial.
Um único ônibus pode transportar dezenas de passageiros em uma mesma viagem. Quando um veículo coletivo movido a diesel é substituído por um modelo de emissão zero, o benefício potencial não se limita à substituição de um motor.
Ele alcança todos os passageiros transportados e as pessoas que vivem ou trabalham ao longo do trajeto.
Cidades da América Latina já vêm avançando na eletrificação de suas frotas de ônibus, mostrando que a tecnologia pode ser aplicada em larga escala quando existe planejamento, investimento e política pública.
Para o Brasil, ampliar essa transformação pode representar uma oportunidade para combinar mobilidade, qualidade do ar e melhoria do transporte público.
O problema não termina no veículo
Outro cuidado importante está relacionado à forma como as emissões são medidas.
Um veículo pode atender aos padrões estabelecidos nos processos de certificação e apresentar comportamento diferente em determinadas condições reais de circulação.
Por isso, além de estabelecer limites cada vez mais rigorosos, é necessário monitorar as emissões nas ruas.
Iniciativas de medição em condições reais, como o projeto TRUE, realizado na Região Metropolitana de São Paulo, ajudam a revelar diferenças entre os resultados de laboratório e o comportamento de determinados veículos em circulação.
A fiscalização precisa acompanhar a evolução tecnológica.
Quanto mais sofisticados se tornam os sistemas de controle de emissões, mais importante se torna também a capacidade de verificar o desempenho real dos veículos.
O Brasil já possui instrumentos importantes
O país não começa essa caminhada do zero.
O Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores, o Proconve, vem estabelecendo limites progressivamente mais rigorosos para as emissões de veículos.
As fases mais recentes elevaram as exigências para automóveis e veículos pesados.
Essas políticas são importantes porque ajudam a impedir que veículos altamente poluentes continuem sendo produzidos indefinidamente.
Mas existe uma diferença entre reduzir a emissão dos veículos novos e retirar da circulação os veículos antigos.
A frota brasileira é heterogênea.
Veículos novos convivem com modelos muito mais antigos, que podem apresentar níveis de emissão significativamente maiores.
Por isso, políticas de renovação da frota precisam caminhar ao lado dos limites de emissão.
A transição também pode gerar empregos
A transformação da mobilidade não representa apenas um desafio ambiental.
Ela pode abrir espaço para uma nova etapa da indústria brasileira.
A produção de veículos elétricos exige novas competências em áreas como eletrônica, software, baterias, motores elétricos, sistemas de gerenciamento de energia e manutenção especializada.
Um estudo anterior do ICCT apontou que a produção nacional de veículos elétricos poderia contribuir para ampliar significativamente a geração de empregos no Brasil até 2050, especialmente com o desenvolvimento de uma cadeia produtiva nacional.
A transição, portanto, pode representar simultaneamente uma política ambiental, uma política industrial e uma oportunidade de qualificação profissional.
O Brasil pode preservar milhares de vidas
Os dados projetados para o país ajudam a dimensionar o potencial da mudança.
Em um cenário ambicioso de transição para veículos de emissão zero, o Brasil poderia evitar aproximadamente 65,2 mil mortes prematuras e 18,6 mil casos de asma infantil até 2050.
Esses números não representam uma promessa automática.
Eles dependem de políticas públicas, investimentos, infraestrutura, renovação de frota e velocidade de adoção das novas tecnologias.
Mas mostram que existe uma diferença concreta entre esperar a transformação acontecer naturalmente e criar condições para que ela aconteça mais rapidamente.
O custo de esperar
Existe uma característica comum em muitos problemas de saúde pública: os efeitos aparecem de maneira gradual.
É justamente por isso que podem receber menos atenção.
A poluição atmosférica não produz necessariamente uma emergência visível no momento em que ocorre.
Ela se acumula.
A exposição se repete.
Os efeitos podem surgir ou se agravar ao longo dos anos.
Por isso, esperar que os problemas apareçam para depois agir pode significar aceitar um custo humano muito maior.
O estudo do ICCT coloca esse custo em números.
E os números mostram que a velocidade das decisões tomadas hoje terá influência direta sobre a saúde da população nas próximas décadas.
Mais do que eletrificar, é preciso repensar a mobilidade

A mobilidade do futuro depende da combinação entre veículos menos poluentes, transporte coletivo eficiente, infraestrutura adequada e planejamento urbano.
A transição para veículos de emissão zero é uma oportunidade importante, mas não deve ser confundida com uma solução isolada.
O futuro da mobilidade precisa combinar diferentes estratégias.
É necessário estimular o transporte coletivo, melhorar a infraestrutura para pedestres e ciclistas, renovar frotas antigas, ampliar a fiscalização das emissões, desenvolver combustíveis e tecnologias menos poluentes, incentivar a eletrificação e planejar cidades que reduzam a necessidade de deslocamentos excessivos.
Também é necessário considerar a matriz energética.
Quanto mais limpa for a eletricidade utilizada para abastecer os veículos, maior será o benefício ambiental da eletrificação.
O Brasil possui uma vantagem importante nesse campo, graças à elevada participação de fontes renováveis em sua matriz elétrica.
A decisão começa muito antes de 2050
2050 parece distante.
Mas os veículos que estarão circulando naquele ano começarão a ser escolhidos muito antes disso.
As decisões tomadas agora sobre transporte público, infraestrutura, padrões de emissão, indústria automobilística, energia e planejamento urbano determinarão a velocidade da transformação.
Por isso, o estudo do ICCT não deve ser visto apenas como uma projeção sobre o futuro.
Ele é também um alerta sobre o presente.
A questão é saber se o Brasil permitirá que o crescimento da frota movida a combustíveis fósseis continue superando os ganhos obtidos com veículos mais eficientes ou se conseguirá acelerar uma transformação capaz de reduzir de maneira significativa a exposição da população à poluição.
Segurança viária também é qualidade de vida
A educação para o trânsito tradicionalmente ensina que dirigir com responsabilidade significa proteger a própria vida e a vida dos outros.
Essa ideia pode ser ampliada.
Proteger vidas também significa pensar no ambiente produzido pelo sistema de mobilidade.
Significa buscar ruas mais seguras, transporte coletivo mais eficiente, cidades menos dependentes do automóvel e veículos que causem menos danos à saúde.
A poluição do trânsito é uma ameaça diferente dos riscos mais conhecidos da circulação viária, mas seus efeitos também atingem pessoas que não escolheram estar expostas a ela.
Quem caminha pela calçada, espera um ônibus, trabalha como entregador, mora próximo a uma avenida movimentada ou leva uma criança à escola também faz parte desse sistema.
Por isso, uma política de mobilidade verdadeiramente voltada à proteção da vida precisa considerar tanto o risco de um sinistro quanto o risco invisível da poluição.
O futuro que queremos respirar
A transição para uma mobilidade de emissão zero não acontecerá de um dia para o outro.
Haverá desafios tecnológicos, econômicos, industriais e de infraestrutura.
Mas o estudo do ICCT mostra que o benefício potencial é grande demais para ser ignorado.
Milhões de mortes podem ser evitadas no mundo.
No Brasil, dezenas de milhares de vidas podem ser preservadas.
Milhares de crianças podem deixar de desenvolver doenças relacionadas à exposição à poluição do transporte.
Esses números ajudam a mudar a pergunta.
Não se trata apenas de perguntar quanto custa eletrificar uma frota.
É preciso perguntar também:
quanto custa para a sociedade não fazê-lo?
Quando essa pergunta entra no debate, a transição deixa de ser apenas uma discussão sobre tecnologia e passa a ser uma discussão sobre saúde, responsabilidade e futuro.
Porque mobilidade não é apenas a capacidade de chegar.
É também a qualidade do caminho.
E, acima de tudo, é a possibilidade de chegar ao futuro com mais pessoas vivas e respirando um ar melhor.
Abetran, 10 de agosto de 2026
George J Marques
Fonte principal: International Council on Clean Transportation (ICCT), Health Benefits of Zero-Emission Transport Through 2050.
TRÂNSITO: UMA QUESTÃO DE EDUCAÇÃO!