Levantamento nacional, experiências internacionais e estudos científicos revelam por que milhares de condutores insistem em desrespeitar os limites e quais medidas têm apresentado melhores resultados na redução da violência viária.

Mesmo após décadas de campanhas, fiscalização e endurecimento das leis, o excesso de velocidade permanece como a infração mais cometida no Brasil e um dos principais fatores associados às mortes no trânsito. Especialistas defendem que apenas multas não são suficientes e apontam a educação, a engenharia viária e a mudança de comportamento como caminhos para reduzir um problema que se repete em diversos países.

O excesso de velocidade é um dos maiores desafios da segurança viária no mundo. Embora os avanços tecnológicos tenham tornado os veículos mais seguros e as vias mais estruturadas, milhões de motoristas continuam desrespeitando os limites estabelecidos, aumentando significativamente o risco de colisões graves e mortes.

No Brasil, esse comportamento continua sendo, de forma isolada, a infração de trânsito mais registrada. Dados oficiais da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), referentes aos cinco primeiros meses de 2026, mostram que as autuações por excesso de velocidade superaram a marca de 19 milhões de registros, número muito superior ao de qualquer outra infração de trânsito.

Mais do que representar um desrespeito à legislação, esses números revelam uma cultura de condução que ainda associa velocidade à eficiência, habilidade ou economia de tempo, ignorando que poucos quilômetros por hora podem representar a diferença entre um susto e uma tragédia.

Velocidade e gravidade caminham juntas

Nenhum outro fator modifica tanto a gravidade de um sinistro quanto a velocidade.

A física é implacável. A energia liberada durante uma colisão cresce exponencialmente à medida que a velocidade aumenta. Em termos práticos, um veículo a 80 km/h não gera apenas o dobro da energia de um veículo a 40 km/h, mas aproximadamente quatro vezes mais impacto.

Além disso, quanto maior a velocidade:

Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que um aumento de apenas 1% na velocidade média pode elevar em cerca de 4% o número de mortes em colisões fatais e em aproximadamente 3% os sinistros com vítimas graves.

Da mesma forma, pequenas reduções de velocidade produzem impactos expressivos na preservação de vidas.

Um problema mundial

O excesso de velocidade não é exclusividade brasileira.

A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente 1,19 milhão de pessoas morram todos os anos em sinistros de trânsito no planeta, sendo a velocidade um dos principais fatores de risco associados às fatalidades.

Diversos países enfrentaram o problema com políticas bastante diferentes.

Suécia

A Suécia adota há décadas a filosofia da Visão Zero, segundo a qual nenhuma morte no trânsito é aceitável.

Entre as medidas implantadas estão:

O país possui uma das menores taxas de mortalidade no trânsito do mundo.

Holanda

A Holanda também reduziu limites urbanos, ampliou ciclovias segregadas e reorganizou bairros para tornar naturalmente difícil dirigir em alta velocidade.

O conceito é simples: ruas devem induzir comportamentos seguros, independentemente da vontade do motorista.

Reino Unido

No Reino Unido, radares fixos e móveis são amplamente aceitos pela população.

Além das multas, muitos motoristas flagrados em pequenas infrações podem ser obrigados a participar de cursos presenciais sobre segurança viária, onde aprendem os impactos reais da velocidade excessiva.

Austrália

Diversos estados australianos utilizam radares móveis praticamente invisíveis, fiscalização constante e forte divulgação de campanhas emocionais mostrando consequências reais dos sinistros.

Japão

No Japão, além das penalidades financeiras elevadas, existe forte reprovação social para comportamentos perigosos no trânsito.

A disciplina coletiva e a educação desde a infância ajudam a explicar os baixos índices de mortalidade.

Como o Brasil pune o excesso de velocidade

O Código de Trânsito Brasileiro estabelece três níveis de infração.

Até 20% acima do limite

Entre 20% e 50%

Acima de 50%

Embora a legislação brasileira seja relativamente rígida, os números demonstram que a punição, isoladamente, não tem sido suficiente para modificar comportamentos.

Como outros países tratam quem excede a velocidade

Há diferenças importantes entre as legislações internacionais.

Alemanha

Apesar da fama das autoestradas alemãs (Autobahn), conhecidas por alguns trechos sem limite de velocidade, a maior parte da rede viária do país possui limites estabelecidos.

Em áreas urbanas, a fiscalização é rigorosa.

Motoristas reincidentes podem perder a habilitação e serem submetidos a avaliações psicológicas antes de voltar a dirigir.

França

As multas aumentam conforme o excesso registrado.

Infrações mais graves podem resultar em:

Noruega

Possui algumas das multas mais altas do mundo.

Em determinadas situações, o valor da penalidade é proporcional à renda do infrator.

Casos extremos podem resultar até em prisão.

Finlândia

O sistema proporcional à renda ficou famoso internacionalmente.

Executivos e empresários já receberam multas equivalentes a centenas de milhares de euros por dirigirem muito acima do limite.

A lógica é simples: a punição deve produzir o mesmo efeito econômico para ricos e pobres.

Suíça

Também adota multas calculadas conforme a renda em situações graves.

Além disso, veículos utilizados em velocidades extremamente perigosas podem ser confiscados.

Por que tantos motoristas insistem em correr?

Especialistas em comportamento humano apontam que a decisão de exceder a velocidade raramente ocorre por necessidade real.

Entre os fatores mais comuns estão:

Ilusão de controle

Muitos condutores acreditam possuir habilidade suficiente para evitar colisões, mesmo em velocidades incompatíveis.

Sensação de impunidade

Quando o motorista acredita que dificilmente será fiscalizado, tende a assumir mais riscos.

Pressa permanente

Rotinas cada vez mais aceleradas levam muitos condutores a acreditar que alguns minutos justificam velocidades maiores.

Na prática, o ganho costuma ser pequeno.

Em trajetos urbanos, aumentar significativamente a velocidade normalmente reduz apenas poucos minutos do deslocamento.

Excesso de confiança

Motoristas experientes frequentemente acreditam que acidentes acontecem apenas com os outros.

Esse fenômeno psicológico é amplamente estudado pela segurança viária.

Veículos cada vez mais silenciosos

Automóveis modernos oferecem conforto, estabilidade e isolamento acústico.

Como consequência, muitos condutores perdem a percepção da velocidade real.

O papel da infraestrutura

Nem toda responsabilidade pode ser atribuída ao motorista.

Diversos estudos internacionais demonstram que ruas largas, retas e visualmente abertas estimulam naturalmente velocidades maiores.

Por isso, países com melhores resultados investem em engenharia viária.

Entre as soluções mais utilizadas estão:

O conceito é conhecido como “vias autoexplicativas”: o ambiente induz o comportamento seguro.

Fiscalização salva vidas?

Sim.

Diversas pesquisas mostram redução consistente nas mortes após a implantação de fiscalização eletrônica.

Entretanto, especialistas ressaltam que radares não devem ter finalidade arrecadatória.

Sua função é modificar comportamentos.

Quando a fiscalização é previsível, transparente e acompanhada por campanhas educativas, os resultados costumam ser mais duradouros.

Educação continua sendo a solução mais duradoura

Nenhum país reduziu drasticamente suas mortes apenas aumentando multas.

Os melhores resultados surgiram da combinação entre:

A mudança cultural leva anos, mas produz efeitos sustentáveis.

Tecnologia também pode ajudar

A indústria automotiva vem incorporando recursos capazes de reduzir excessos de velocidade.

Entre eles:

Na União Europeia, diversos veículos novos já saem de fábrica equipados com sistemas que alertam automaticamente quando o motorista ultrapassa o limite permitido.

O custo econômico da velocidade

As consequências vão muito além das estatísticas de mortes.

Os sinistros provocados pelo excesso de velocidade geram elevados custos para toda a sociedade:

Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) estimam que os custos dos sinistros de trânsito representam dezenas de bilhões de reais por ano para o Brasil, considerando despesas médicas, perdas econômicas e danos materiais.

A posição da ABETRAN

Para a Associação Brasileira de Educação para o Trânsito (ABETRAN), o elevado número de autuações por excesso de velocidade evidencia que o Brasil ainda enfrenta dificuldades para transformar conhecimento em comportamento seguro.

Grande parte dos condutores sabe que dirigir acima do limite aumenta o risco de mortes, mas esse conhecimento nem sempre se traduz em escolhas responsáveis ao volante.

A entidade defende que a resposta ao problema deve ir além do aumento das penalidades. É indispensável fortalecer a formação dos condutores, investir em educação para o trânsito desde a infância, ampliar campanhas permanentes de conscientização, aprimorar a engenharia viária e manter uma fiscalização transparente e eficiente.

Também preocupa a flexibilização da formação de novos motoristas em um cenário no qual milhões de infrações continuam sendo registradas por condutas básicas de segurança. Reduzir exigências de aprendizagem, justamente quando os indicadores revelam comportamentos recorrentes de risco, pode comprometer os avanços necessários para a construção de um trânsito mais seguro.

Velocidade não economiza vidas

Os milhões de infrações registradas todos os anos revelam que o excesso de velocidade continua sendo tratado por muitos brasileiros como uma infração de menor importância. No entanto, as evidências científicas mostram exatamente o contrário: a velocidade é um dos fatores que mais determinam a gravidade de um sinistro.

A experiência internacional demonstra que reduzir mortes exige uma abordagem integrada, baseada em educação, fiscalização, infraestrutura segura, tecnologia e políticas públicas consistentes. Países que alcançaram resultados expressivos não apostaram em uma única solução, mas na combinação de diversas estratégias ao longo de muitos anos.

No Brasil, onde o excesso de velocidade permanece como a infração mais recorrente, o desafio não é apenas fazer cumprir a lei, mas promover uma mudança cultural que valorize a vida acima da pressa. Afinal, alguns minutos economizados jamais compensam as consequências de uma decisão tomada com o acelerador além do limite.

Abetran, 22 de julho de 2026

George J Marques

TRÂNSITO: UMA QUESTÃO DE EDUCAÇÃO!