Nova ferramenta reúne informações sobre passagens e pagamentos, enquanto o modelo divide opiniões entre os ganhos para a mobilidade e os desafios enfrentados pelos motoristas.

Aplicativo CNH do Brasil passa a oferecer consulta às passagens realizadas em pedágios eletrônicos no sistema free flow. Foto: Divulgação/CNH do Brasil
Nova ferramenta reúne informações sobre passagens e
pagamentos, enquanto o modelo divide opiniões entre os ganhos para a mobilidade
e os desafios enfrentados pelos motoristas.
A expansão dos pedágios eletrônicos sem cancelas no Brasil
ganhou um novo capítulo nesta segunda-feira, 24 de agosto. O aplicativo CNH do
Brasil passou a concentrar informações sobre as passagens realizadas pelo
motorista em sistemas de cobrança free flow, reunindo dados que antes estavam
dispersos entre diferentes concessionárias.
A novidade representa uma tentativa de resolver um dos
principais problemas enfrentados desde a implantação desse modelo: muitos
condutores simplesmente não sabiam que haviam passado por um ponto de cobrança,
desconheciam a concessionária responsável pela rodovia ou encontravam
dificuldades para descobrir onde deveriam quitar o débito. O próprio material
de referência aponta que o novo recurso permite consultar passagens, valores,
prazos e os canais indicados para pagamento.
Uma ideia simples para um sistema que se tornou complexo

Pórtico do sistema free flow permite a cobrança eletrônica sem que o motorista precise parar na rodovia. Foto: Divulgação/Comunicação ANTT.
O conceito do free flow é, em princípio, bastante direto. Em
vez de reduzir a velocidade, enfrentar filas e parar diante de uma cancela, o
veículo segue viagem normalmente. Pórticos instalados nas rodovias identificam
a passagem e o sistema registra a cobrança correspondente.
A proposta traz vantagens evidentes para a circulação. Sem
praças tradicionais, diminui-se a necessidade de frenagens, acelerações e
mudanças bruscas de faixa nas proximidades dos pedágios. Também há potencial
para reduzir congestionamentos e tornar as viagens mais fluidas.
Outro ponto positivo é a possibilidade de cobrança
relacionada ao trecho efetivamente utilizado, dependendo do modelo adotado na
concessão. Para quem percorre apenas parte da rodovia, esse formato pode
representar uma cobrança mais proporcional ao uso da infraestrutura.
Mas a experiência brasileira mostrou que retirar a cancela
não elimina a obrigação de pagar. Pelo contrário, transfere para o motorista
uma responsabilidade que antes era resolvida automaticamente no próprio momento
da passagem.
Os benefícios: trânsito mais fluido e menos paradas

Pórticos equipados com sensores e sistemas de leitura permitem identificar os veículos durante a passagem e realizar a cobrança eletrônica. Foto: Divulgação/Comunicação ANTT.
Entre os argumentos favoráveis ao free flow está justamente
a modernização da circulação nas rodovias. O motorista não precisa enfrentar
filas nem interromper a viagem para realizar o pagamento em uma cabine.
Em rodovias de grande movimento, essa mudança pode
contribuir para melhorar a fluidez e reduzir os pontos de retenção. A ausência
das tradicionais praças de pedágio também modifica a dinâmica do tráfego e
elimina situações comuns de concentração de veículos antes das cancelas.
O modelo ainda acompanha uma tendência de digitalização dos
serviços de mobilidade. Para usuários que possuem tag eletrônica, o processo
tende a ser praticamente imperceptível. O veículo é identificado e a cobrança
ocorre conforme o sistema contratado.
Agora, com a integração das informações ao aplicativo CNH do
Brasil, a expectativa é facilitar também a vida de quem não utiliza tag ou
precisa acompanhar diferentes passagens realizadas em várias rodovias.
Atualmente, o sistema já está presente em rodovias operadas
por 14 concessionárias homologadas, e a expansão do modelo vem ocorrendo de
forma progressiva. As informações reunidas no aplicativo abrangem vias federais
e estaduais que utilizam a tecnologia.
O lado negativo: quando a facilidade para passar se transforma em dificuldade
para pagar
É justamente nesse ponto que surgem os principais
questionamentos.

Pórticos equipados com sensores e sistemas de leitura permitem identificar os veículos durante a passagem e realizar a cobrança eletrônica. Foto: Divulgação/Comunicação ANTT.
No pedágio convencional, o motorista visualiza a praça,
recebe uma confirmação imediata da cobrança e efetua o pagamento antes de
prosseguir. No free flow, a experiência é diferente. O veículo passa
normalmente, muitas vezes sem que o condutor perceba com clareza que acabou de
gerar uma obrigação de pagamento.
Essa aparente simplicidade acabou provocando problemas para
parte dos usuários. Houve reclamações de motoristas que não sabiam onde
consultar os débitos, desconheciam os prazos ou tinham dificuldade para
identificar a concessionária responsável pela cobrança. Para empresas e
proprietários de frotas, o acompanhamento de veículos que circulam por
diferentes rodovias também se tornou um desafio adicional.
O resultado foi um volume expressivo de autuações
relacionadas ao não pagamento das tarifas. O material de referência informa que
milhões de multas aplicadas no país foram posteriormente suspensas, dentro de
uma medida condicionada à regularização dos débitos pendentes até o prazo
estabelecido.
Esse episódio deixou uma lição importante: uma inovação
tecnológica não pode pressupor que todos os usuários compreenderão
automaticamente como ela funciona.
A integração com a CNH do Brasil pode corrigir uma falha
importante
A nova funcionalidade do aplicativo surge justamente como
resposta a essa dificuldade.
A proposta é concentrar, em um único ambiente, informações
sobre as passagens realizadas pelo veículo, identificar a concessionária
responsável e indicar o caminho para a quitação da tarifa. A ferramenta também
foi anunciada com a possibilidade de notificações para alertar o condutor sobre
a existência de cobranças e evitar que o débito seja esquecido.
Na prática, a mudança pode representar um avanço
significativo. O problema deixa de ser procurar, individualmente, cada
concessionária ou tentar descobrir se determinado pórtico correspondia a uma
cobrança.
O aplicativo não elimina a responsabilidade do motorista,
mas pode reduzir a desinformação que marcou os primeiros meses de funcionamento
do sistema.
A tecnologia precisa ser acompanhada de informação
A discussão sobre o free flow vai além do pagamento de uma
tarifa. Ela envolve a forma como novas tecnologias são apresentadas e
incorporadas à rotina da população.
Um sistema pode ser moderno, eficiente e tecnicamente
avançado, mas ainda assim gerar dificuldades se o usuário não receber
informações claras sobre seu funcionamento.
Nem todos os motoristas utilizam aplicativos com frequência.
Há condutores idosos, pessoas com pouca familiaridade digital, usuários que não
possuem acesso permanente à internet e profissionais que dirigem veículos de
terceiros. Em todos esses casos, a transição para um modelo totalmente
eletrônico exige atenção especial.
Por isso, a integração com o aplicativo CNH do Brasil é um
passo positivo, mas não deveria ser a única forma de comunicação. A sinalização
nas rodovias, campanhas educativas, avisos claros sobre prazos e formas de
pagamento continuam sendo fundamentais.
Entre a modernização e a responsabilidade
O free flow representa uma mudança importante na maneira
como o Brasil pensa a cobrança pelo uso das rodovias. Seus benefícios são
evidentes: menos paradas, maior fluidez, possibilidade de cobrança mais
vinculada ao trecho utilizado e redução dos tradicionais pontos de retenção.
Por outro lado, a experiência também demonstrou que a
ausência da cancela pode criar uma espécie de invisibilidade da cobrança. O
motorista segue viagem normalmente e, se não estiver atento, pode descobrir
posteriormente que acumulou débitos e está sujeito a penalidades.
Segundo as informações reunidas nas matérias de referência,
o não pagamento dentro do prazo legal pode configurar infração grave, com multa
de R$ 195,23 e cinco pontos na CNH.
A grande questão, portanto, não é ser contra ou a favor da
tecnologia. O desafio é fazer com que a inovação realmente simplifique a vida
de quem utiliza as rodovias.
Se o novo recurso da CNH do Brasil conseguir transformar
informações dispersas em um acompanhamento claro e acessível, poderá corrigir
uma das principais fragilidades verificadas na implantação do free flow.
O avanço só será completo quando ninguém for surpreendido
pela cobrança
A retirada das cancelas pode tornar a viagem mais rápida,
mas não pode transformar o pagamento do pedágio em uma surpresa descoberta dias
ou semanas depois.
O futuro da mobilidade passa, inevitavelmente, pela
tecnologia. No entanto, toda inovação precisa caminhar ao lado da informação,
da transparência e da educação do usuário.
O free flow tem potencial para tornar as rodovias mais
eficientes. A chegada das informações ao aplicativo CNH do Brasil é um passo
importante nessa direção. Agora, o desafio será garantir que o sistema seja não
apenas moderno para quem o opera, mas também simples e compreensível para quem
está ao volante.
Abetran, 24 de agosto de 2026
George J Marques
TRÂNSITO: UMA QUESTÃO DE EDUCAÇÃO!