A vida que caminha continua sendo a mais vulnerável no trânsito brasileiro

No calendário brasileiro, o Dia do Pedestre, celebrado em 8 de agosto, deveria ser uma oportunidade para celebrar cidades mais humanas, calçadas acessíveis, travessias seguras e uma cultura consolidada de respeito à vida. Infelizmente, a realidade ainda está distante desse cenário.
O Brasil chega a mais um Dia do Pedestre convivendo com uma contradição preocupante. Enquanto a legislação garante prioridade absoluta a quem está a pé, milhares de brasileiros continuam morrendo simplesmente porque decidiram caminhar. O pedestre, que deveria ser o elemento mais protegido do sistema viário, permanece sendo um dos mais vulneráveis.
Os números divulgados pela Polícia Rodoviária Federal nesta sexta-feira reforçam esse alerta. Apenas no primeiro semestre de 2026, foram registrados 1.658 atropelamentos nas rodovias federais, crescimento de 13,87% em relação ao mesmo período de 2025. O mais grave é que 498 pessoas perderam a vida, contra 438 no ano anterior, um aumento de quase 14%. Esses dados revelam que, apesar dos avanços tecnológicos dos veículos e da evolução da legislação, ainda estamos falhando no aspecto mais importante do trânsito: preservar vidas.
Mais do que estatísticas, são histórias interrompidas. Pais, mães, crianças, idosos e trabalhadores que jamais chegaram ao destino.
O pedestre deveria ser o centro da mobilidade

Existe uma lógica simples que deveria nortear qualquer política pública de mobilidade urbana: todos somos pedestres.
Antes de entrar em um carro, subir em uma motocicleta, embarcar em um ônibus ou utilizar uma bicicleta, todos caminhamos. Mesmo quem dirige diariamente também é pedestre em diversos momentos do dia.
Essa compreensão levou diversos países a inverterem a lógica do planejamento urbano. Em vez de projetar cidades para os veículos, passaram a projetá-las para as pessoas.
No Brasil, porém, grande parte das cidades ainda foi construída privilegiando o fluxo de automóveis. Calçadas estreitas, obstáculos, falta de rampas, iluminação insuficiente, travessias mal posicionadas e tempos semafóricos inadequados mostram que o pedestre raramente foi prioridade.
O Código de Trânsito é claro, mas ainda pouco respeitado
O Código de Trânsito Brasileiro estabelece diversos direitos aos pedestres.
Entre eles estão:
- prioridade na faixa de pedestres;
- preferência durante a travessia, mesmo onde não exista semáforo;
- proteção especial por parte dos condutores;
- responsabilidade maior dos veículos sobre os usuários mais vulneráveis.
O próprio CTB estabelece uma hierarquia de proteção. Quem conduz veículos maiores deve proteger quem está em condição mais frágil.
Na prática, entretanto, ainda é comum encontrar situações em que veículos aceleram sobre a faixa, disputam espaço com pedestres ou simplesmente ignoram o direito de passagem.
A consequência aparece diariamente nos hospitais.
O atropelamento raramente é um “acidente”
Durante muitos anos, o atropelamento foi tratado como fatalidade inevitável.
Hoje sabe-se que essa visão está equivocada.
Especialistas em segurança viária afirmam que praticamente todo atropelamento possui causas identificáveis:
- excesso de velocidade;
- distração ao volante;
- uso do celular;
- consumo de álcool;
- baixa iluminação;
- ausência de travessias seguras;
- falta de fiscalização;
- infraestrutura deficiente.
Quando esses fatores são enfrentados, os atropelamentos diminuem significativamente.
Por isso, o termo “sinistro de trânsito” passou a substituir “acidente”, deixando claro que, na maioria das vezes, essas ocorrências são evitáveis.
A velocidade continua sendo a maior inimiga do pedestre

Poucos fatores influenciam tanto a sobrevivência de um pedestre quanto a velocidade do veículo.
Diversos estudos internacionais mostram que:
- um impacto a 30 km/h oferece alta possibilidade de sobrevivência;
- a 50 km/h, o risco de morte cresce drasticamente;
- acima de 60 km/h, as chances de sobrevivência tornam-se muito pequenas.
Por isso, cidades que reduziram velocidades em áreas urbanas observaram quedas expressivas nas mortes.
Não é apenas uma questão de tempo de reação.
É uma questão de energia física.
Quanto maior a velocidade, maior a violência do impacto.
As rodovias concentram os casos mais graves

Os dados da PRF revelam uma realidade especialmente preocupante nas rodovias federais.
Em 2025 foram registrados 3.057 atropelamentos, com 919 mortes ao longo do ano. Agora, apenas nos seis primeiros meses de 2026, já são 498 vítimas fatais, indicando um cenário que exige atenção imediata.
As razões são conhecidas.
Nas rodovias existem:
- velocidades elevadas;
- travessias improvisadas;
- comunidades instaladas às margens das pistas;
- trabalhadores rurais;
- pontos de ônibus sem acesso seguro;
- iluminação insuficiente.
Em muitos locais, pessoas precisam atravessar pistas duplicadas diariamente para estudar, trabalhar ou acessar serviços básicos.
O problema vai muito além das rodovias federais
Os dados apresentados pela Polícia Rodoviária Federal retratam apenas a realidade das rodovias federais. Eles não incluem os atropelamentos registrados nas vias urbanas, rodovias estaduais e estradas municipais, onde também ocorrem milhares de ocorrências todos os anos. Isso significa que a dimensão real do problema no Brasil é ainda maior, reforçando a necessidade de políticas públicas permanentes voltadas à proteção dos pedestres.
Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro lideram os registros
Segundo a PRF, Minas Gerais aparece entre os estados com maior número de atropelamentos, acompanhado por Rio de Janeiro e Paraná.
Quando analisadas as mortes, Minas Gerais permanece na liderança, seguida por Paraná e Rio de Janeiro.
Mais do que apontar rankings, esses dados indicam onde políticas públicas precisam ser reforçadas, especialmente em trechos urbanos de rodovias federais e áreas metropolitanas.
O que podemos comemorar?
Apesar dos desafios, existem avanços importantes.
Nas últimas décadas o Brasil conquistou:
- legislação moderna;
- prioridade legal ao pedestre;
- campanhas nacionais de conscientização;
- expansão das faixas elevadas;
- melhoria da acessibilidade em diversas cidades;
- programas de redução de velocidade;
- fortalecimento da educação para o trânsito.
Também cresce a consciência de que segurança viária é questão de saúde pública.
Hoje, engenharia, fiscalização, educação e planejamento urbano são tratados de forma integrada por diversos municípios.
Ainda é insuficiente, mas representa evolução.
Qual cidade brasileira mais respeita o pedestre?
Quando especialistas em mobilidade urbana avaliam cidades brasileiras, um nome aparece com frequência: Curitiba.
Embora nenhuma cidade brasileira possa afirmar que resolveu completamente o problema, Curitiba tornou-se referência por diversos fatores:
- planejamento urbano consolidado;
- calçadas relativamente melhor estruturadas;
- grande número de travessias sinalizadas;
- integração entre transporte coletivo e circulação de pedestres;
- tradição em educação para o trânsito;
- velocidades mais compatíveis em diversas áreas centrais;
- cultura de maior respeito à faixa de pedestres quando comparada à média nacional.
Nos últimos anos, Brasília também ganhou reconhecimento pelo elevado índice de respeito às faixas de pedestres em várias regiões centrais, resultado de campanhas educativas iniciadas ainda na década de 1990 e mantidas ao longo do tempo.
No Oeste da Bahia, Barreiras também merece destaque como um exemplo positivo de convivência entre motoristas e pedestres. Embora não existam estudos nacionais que classifiquem oficialmente o município entre os que mais respeitam a faixa de pedestres, moradores e visitantes costumam destacar a cordialidade dos condutores durante as travessias. Esse comportamento é frequentemente associado à forte ligação cultural e econômica da cidade com Brasília, destino frequente de empresários, estudantes, servidores públicos e profissionais da região. Ao longo dos anos, essa convivência acabou fortalecendo uma cultura local de maior respeito ao pedestre, demonstrando que hábitos seguros podem ser incorporados naturalmente pela sociedade.
Além delas, cidades como Maringá, Joinville e Florianópolis apresentam experiências positivas em determinadas áreas, embora ainda enfrentem desafios semelhantes aos do restante do país.
O aspecto mais importante não é apenas a infraestrutura.
É a cultura.
Onde o motorista entende que a faixa pertence ao pedestre, o comportamento muda rapidamente.
O exemplo vem do exterior
Países como Holanda, Suécia, Noruega e Japão mostram que reduzir mortes é perfeitamente possível.
Essas nações investiram simultaneamente em:
- educação permanente;
- fiscalização consistente;
- ruas mais lentas;
- calçadas amplas;
- travessias elevadas;
- iluminação eficiente;
- desenho urbano pensado para pessoas.
Nenhuma dessas medidas funciona isoladamente.
O sucesso está na combinação de todas elas.
O papel da educação
Nenhuma mudança será duradoura sem educação.
A criança que aprende, desde cedo, a respeitar o pedestre torna-se um motorista mais consciente no futuro.
Da mesma forma, o adulto que compreende seus direitos e deveres como pedestre também contribui para um trânsito mais seguro.
A educação para o trânsito precisa deixar de ser apenas uma campanha ocasional e tornar-se parte permanente da formação cidadã, começando nas escolas e alcançando empresas, órgãos públicos e toda a sociedade.
O que ainda precisa mudar

O Brasil precisa avançar em várias frentes para proteger quem caminha:
- ampliar programas de redução de velocidade;
- investir na construção e manutenção de calçadas acessíveis;
- eliminar travessias perigosas;
- instalar passarelas onde realmente sejam necessárias e acessíveis;
- ampliar a iluminação pública;
- intensificar a fiscalização sobre o respeito à faixa de pedestres;
- fortalecer campanhas educativas permanentes;
- integrar mobilidade urbana e planejamento das cidades;
- produzir dados mais detalhados para orientar políticas públicas.
Sobretudo, é necessário compreender que nenhuma morte por atropelamento pode ser tratada como inevitável.
Mais do que atravessar ruas, o pedestre atravessa desafios
O Dia do Pedestre deveria ser uma data de celebração.
Hoje, porém, é sobretudo um momento de reflexão.
Enquanto quase 500 pessoas perderam a vida em atropelamentos nas rodovias federais apenas nos primeiros seis meses de 2026, fica evidente que o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer.
Respeitar o pedestre não é apenas cumprir uma norma do Código de Trânsito.
É reconhecer que a vida humana vale mais do que alguns segundos economizados no trajeto.
Uma cidade verdadeiramente desenvolvida não é aquela onde os veículos circulam mais rápido, mas aquela em que crianças, idosos, pessoas com deficiência e qualquer cidadão podem caminhar com segurança.
O respeito ao pedestre não depende apenas de leis ou de obras de engenharia. Ele nasce de uma cultura construída diariamente, quando motoristas reduzem a velocidade diante de uma faixa, quando o poder público investe em infraestrutura segura e quando o próprio pedestre utiliza corretamente os espaços destinados à travessia. Os exemplos existentes em cidades brasileiras mostram que essa mudança é possível e que preservar vidas começa com pequenas atitudes repetidas todos os dias.
Porque o trânsito começa com quem dá o primeiro passo.
Abetran, 7 de agosto de 2026
George J Marques
TRÂNSITO: UMA QUESTÃO DE EDUCAÇÃO!