Quando a mobilidade falha, o risco vira rotina

O uso crescente da motocicleta no Brasil deixou de ser um fenômeno pontual para se tornar um dos principais desafios da segurança viária contemporânea. Embora amplamente reconhecida como um meio de transporte de alto risco, a moto segue sendo a principal alternativa de mobilidade para milhões de brasileiros, especialmente em regiões onde o transporte coletivo falha em oferecer eficiência, previsibilidade e dignidade.
Estudo recente do Programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ reforça essa constatação ao demonstrar que os motociclistas têm plena consciência dos riscos aos quais estão expostos. Ainda assim, permanecem dependentes da motocicleta para trabalhar, estudar e se deslocar. A pesquisa, apresentada no Rio de Transportes 2025, evidencia que o problema não reside apenas na conduta individual, mas em um modelo urbano que empurra o cidadão para escolhas perigosas por falta de opções reais.
Rapidez, custo reduzido e previsibilidade de tempo transformaram a motocicleta em uma ferramenta indispensável em um cenário marcado por transporte público ineficiente, longas distâncias e crescimento urbano desordenado. Mesmo quando existe acesso formal aos modais coletivos, a experiência cotidiana é descrita como lenta, instável e pouco confiável, reforçando a migração para as duas rodas.
O reflexo desse processo é visível nos números nacionais. A frota de motocicletas segue em expansão acelerada, já alcançando cerca de 28 milhões de unidades em circulação no país. Atualmente, um em cada quatro domicílios brasileiros possui uma moto. Paralelamente, os motociclistas figuram entre as principais vítimas fatais de sinistros de trânsito, representando uma parcela alarmante das mortes nas vias.
Por trás desses números, estão histórias reais, rostos e trajetórias marcadas pela vulnerabilidade cotidiana. Uma delas é a de Lucas Nascimento, motoboy em Governador Valadares, Minas Gerais, pai de quatro filhos, que depende da motocicleta para garantir o sustento da família. Todos os dias, antes de sair para o trabalho, Lucas faz uma oração pedindo proteção. Ao retornar para casa, agradece por ter vencido mais um dia no trânsito.

“A gente sai sem saber se vai voltar. Eu oro quando saio de casa e agradeço quando chego, porque cada dia no trânsito é uma batalha. A moto é meu trabalho, é o que coloca comida na mesa dos meus filhos, mas o risco está ali o tempo todo. O que eu faço é tentar driblar as dificuldades, andar com atenção redobrada e pedir a Deus para me guardar”, relata.
O depoimento de Lucas traduz, de forma direta e humana, o que os dados técnicos confirmam: a motocicleta deixou de ser uma escolha individual racional para se tornar uma solução forçada diante de uma falha coletiva. Ao transferir para o cidadão o ônus do risco, o poder público posterga decisões estruturais e perpetua um modelo de mobilidade excludente, inseguro e desigual.
É nesse contexto que se insere o lançamento do livro “DUAS RODAS, UMA VIDA POR UM FIO: A TRAGÉDIA ANUNCIADA NAS RUAS DO BRASIL”, previsto para o dia 20 de janeiro. A obra encerra uma trilogia dedicada a refletir criticamente sobre o trânsito brasileiro e aprofunda, de forma técnica e humana, a vulnerabilidade do motociclista nas cidades.
O livro apresenta uma análise detalhada do impacto humano, social e econômico dos sinistros envolvendo motocicletas, abordando desde estatísticas e falhas estruturais até os riscos invisíveis enfrentados diariamente por quem depende da moto como meio de subsistência. Histórias como a de Lucas Nascimento ajudam a compreender que, por trás de cada sinistro, há famílias inteiras afetadas e uma cadeia de consequências que ultrapassa o indivíduo.
Mais do que um diagnóstico, a obra propõe reflexão e mobilização. Discute a ausência de políticas preventivas eficazes, a insuficiência de ações isoladas de fiscalização e educação, e a necessidade de integrar responsabilidade individual, ação comunitária e políticas públicas consistentes. O foco não está apenas em denunciar, mas em provocar mudança de postura de motoristas, motociclistas, pedestres e autoridades.
A convergência entre os dados acadêmicos da Coppe/UFRJ e os relatos de quem vive o trânsito diariamente reforça um ponto central defendido pela ABETRAN: reduzir os sinistros envolvendo motociclistas exige mais do que campanhas pontuais. Exige investimento contínuo em transporte coletivo de qualidade, infraestrutura viária segura, educação para o trânsito desde a infância e planejamento urbano comprometido com a preservação da vida.
Enquanto o transporte coletivo continuar falhando, a motocicleta seguirá sendo uma necessidade imposta, mesmo sob risco permanente. Reconhecer o motociclista como trabalhador, pai, mãe, filho e cidadão é passo essencial para transformar essa realidade.
Abetram, 21 de dezembro de 2025
George J Marques
TRÂNSITO: UMA QUESTÃO DE EDUCAÇÃO!