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Responsável: Marccelo Pereyra

Para que servem as estatísticas? A finalidade de consolidar dados quantificados, para apresentar um cenário realístico, nem sempre afeta e transforma, as mentes humanas.

Os números são frios, não traduzem súplicas, não choram pelas tragédias, não modificam a razão. Apresentam a realidade nua, direta e dramática dos fatos, sem ter a finalidade de alterar, as já conflitantes, emoções do nosso tempo.

Apontam o dedo rígido da verdade, sem se importar politicamente em agradar alguma opinião, sem defender correntes religiosas ou tendências de gênero, cor ou classe social.

A cada ano, colhemos em nosso trânsito, 45 mil mortos. Enterramos 45 mil vidas, sem conhecê-las, sem saber seus nomes, suas origens e, as verdadeiras causas de suas fatalidades, pois a estatística não se importa com isso. Ela apenas se presta a apontar os dados, frios e silenciosos, como os cadáveres de seus números.

Considerando que cada ser humano, pertencente a esses dados, tenha convivido intimamente com outras cinco pessoas (familia e amigo pessoal) em sua vida, serão então, pelo menos 225.000 pessoas atingidas por esse impacto da perda. 45.000 efetivamente por suas vidas e outros 180.000 impactados pela fatídica perda de alguém querido, em um acidente de trânsito.

A cada ano, mais de duzentas mil pessoas sentem a perda de algum ente querido, seja por parentesco ou por outro laço afetivo.

Ainda seguindo uma probabilidade estatística, somando as décadas de tragédias fatais, em nossas ruas, avenidas e estradas, podemos afirmar, sem receio de errar, que milhões de brasileiros, hoje, estão afetados, emocionalmente, por algum acidente de trânsito, na história de suas vidas.

E esse ciclo se mantém, a cada ano.

Mas, para que servem mesmo, as estatísticas?

                                                                                               

Parei o meu carro no limite da faixa de travessia de pedestres.

Naquele instante, começo a perceber as pessoas que atravessam à minha frente.

Uns, distraídos, com os fones aos ouvidos, embalados por uma música que não sei o que toca, mas que certamente não será uma das minhas preferidas, andam quase bailando, ao ritmo daquele som.

Ainda uns que, ao perceberem minha atitude de dar a preferência para a travessia, desaceleram os passos, entre risos e conversas, saboreando o direito de transitar diante dos veículos parados, fazendo caras de privilegiados, num universo em que todos competem por espaço, propositalmente vagarosos, sem se importarem com a espera dos carros, ali parados.

Outros, apressados em seus passos, atropelam o tempo, cegos em sua caminhada acelerada, sem ao menos perceber que estão atravessando uma rua.

Ouço o buzinar dos carros atrás de mim, impacientes pelo meu gesto de cidadania e obediência, às regras de trânsito. Aquele buzinaço me confunde, parece querer me dizer para acelerar, para avançar em meio àquelas pessoas que  atravessam a rua, naquele momento.

Vejo pessoas de todos os tipos, generosas e agradecidas, pela preferência que concedo a elas. Algumas, levantam os braços levemente, acenam com o dedo polegar, esboçando um sorriso discreto e, um olhar de aprovação. Logo atrás vem outras, lançando um olhar furioso em minha direção, como se fosse eu, um invasor em seu caminho.

Piso no acelerador, numa linguagem sonora que pede às pessoas para terem um pouco de colaboração, afinal estou ali há um bom tempo esperando pela travessia delas que, indiferentes, insistem em abusar de sua prioridade.

Hoje, é o seu dia, pedestre. Mas o seu dia, são todos os dias em que ocupa as ruas e avenidas de nossas cidades. De maneira desordenada, às vezes coordenada, de bom humor ou não, apressado ou vagaroso demais, educado ou, muitas vezes deseducado, confuso para entender que as relações no trânsito devem evoluir para a gentileza e, a mútua cooperação.

Mais do que um dia para se comemorar algo, o seu dia pedestre, serve de alerta para essa reflexão, a respeito do seu papel no trânsito. Sua atitude, tem uma grande importância para mudar o meio, em que trafega.

Enfim, após a passagem do último pedestre, acelero meu carro e, sigo adiante, até a próxima faixa de pedestres.